sexta-feira, 9 de março de 2012

Fetofobia e obscurantismo

Percival Puggina
O número de vítimas causadas por todas as discriminações odiosas, somadas e multiplicadas por mil, não se aproxima da carnificina causada pela fetofobia.
Estima-se que ela produza, no mundo todo, cerca de 50 milhões de execuções/ano (algo como oito holocaustos a cada 365 dias, ou 2500 jamantas carregadas de fetos).
Trata-se, portanto, de um mal a exigir severas medidas restritivas à sua propagação.
A fetofobia vai direto da tolerância ao ato. Da teoria à prática.
Ela discrimina e mata implacavelmente aqueles contra os quais se volta.
Como não tem justificativa moral, insinua-se mediante raciocínios sofistas e capciosos.
Outro dia, um fetofóbico, indignado, acusava os defensores da vida de se fundarem em princípios e convicções.
Tinha razão. A promoção do aborto só se sustenta no contexto oposto, no contexto dos palpites que caracterizam o relativismo moral e o hedonismo mais rasteiro.
Se princípios e valores não servem para discutir o respeito à vida humana, tampouco servem à Política, ao Direito e à Justiça, bem como à Saúde e à Educação. E assim se esclarece muita coisa.
Todos conhecem a frase do Goebbels sobre a mentira incansavelmente repetida. Mas o que ele ensinou vale, também, para a insistente negação da evidência e para a repetição da tolice. "O Brasil é um país laico!", proclamam os fetofóbicos como se tivessem atingido a epifania do saber.
E daí? Significará isso que qualquer convicção moral, qualquer constatação científica, qualquer reflexão filosófica que coincida com uma afirmação religiosa deva ser banida do catálogo das ideias e expurgada de todo debate civil?
Mas é inútil contestar os piores cegos e surdos, que não querem ver, nem ler, nem ouvir.
Amanhã, os fetofóbicos estarão repetindo, goebbelianamente:
"O Brasil é um país laico. Oba, legalizemos a chacina!".
Ninguém precisa ter lido Julien Freund para perceber, em si mesmo, que as dimensões do ser humano - a política, a religiosa, a cultural, a econômica, a ética e a artística - convivem, necessariamente, umas com as outras.
Dar cartão vermelho a qualquer delas, abortando-a do espaço público, como pretendem fazer com a dimensão religiosa, contraria a natureza humana.
Por isso, é aberração só ensaiada nos totalitarismos, como a experiência dos povos demonstra derramando exemplos sobre a mesa da História.
Houvesse busca sincera da verdade, o que aí está dito bastaria.
Mas a fetofobia não se segura.
Ela voltará aos mesmos "argumentos", dos quais se deduz que:
a) a separação entre Igreja e Estado deve aprisionar em um gueto a cidadania das pessoas de fé;
b) quaisquer valores em que se perceba o perfume de alguma religião devem ser barrados na porta dos parlamentos e tribunais por vício de origem;
c) o feto é coisa inútil - arrancado aos pedaços nada sente;
e d) só pode opinar sobre temas de interesse público quem não tiver convicção alguma.
Tanta tolice precisa substituir argumentos por adjetivos.
Então, ser contra o aborto é fundamentalismo e defender a vida é obscurantismo. Tão lógico quanto isso.
Quero louvar, a propósito, a firmeza dos congressistas evangélicos (onde andam os católicos e a CNBB?), acusados pelos fetofóbicos de pretenderem fazer refém ao governo.
É como se o governo pudesse ficar - e como fica! - refém de qualquer bando, de quaisquer negocistas, de quaisquer corporações ou grupos de interesse.
Mas será demasiadamente subjugado, o governo, se aceitar pressões em defesa da vida.

Zero Hora, 26/02/2012